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Banalidade do Autoritarisno

As elites tradicionais têm a responsabilidade de liderar pelo exemplo e promover a estabilidade e o respeito mútuo na sociedade.

04/02/2024 às 11h06 Atualizada em 04/02/2024 às 11h08
Por: Redação
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Foto Alexandre Damazio - Manifestantes patriotas cruzando a Terceira Ponte
Foto Alexandre Damazio - Manifestantes patriotas cruzando a Terceira Ponte

Por João Gualberto*

Em meu último artigo, fiz um breve comentário sobre o livro Como Salvar a Democracia de dois autores estadunidenses, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt.

Eles analisam, basicamente, as ameaças que estão colocadas para a democracia em seu país.

Na sólida argumentação que constroem, relembram movimentos do passado que, em suas épocas, também foram ameaças ao sistema democrático e se concretizaram no nazismo, no fascismo, no salazarismo e no franquismo, para citar as mais conhecidas entre nós.

Atraiu, particularmente, a minha atenção, um movimento ocorrido na França, nos anos 1930, pela semelhança com acontecimentos recentes em nosso país. Narram, os autores, que na noite do dia 06 de fevereiro de 1934, dezenas de milhares de jovens raivosos – na maioria participantes de associações de veteranos ou de ligas de direita, que ostentavam nomes como Juventudes Patrióticas, Ação Francesa ou Cruz de Fogo – reuniram-se na Place de la Concorde/ Praça da Concórdia. 

Os acontecimentos tomaram rumos inesperados. Houve queima de ônibus, e os manifestantes arremessaram objetos em direção à Assembleia Nacional.

O violento ataque de 06 de fevereiro foi contido, mas produziu profundas marcas na política francesa.

Os insurgentes afirmaram que eram patriotas heroicos que haviam tentado salvar a república da corrupção, do comunismo e da ausência de função pública. Eram mártires. Para eles, foi a polícia quem errou ao conter as manifestações.

Quando o nazismo passou a ser uma ameaça a toda a Europa, esses mesmos grupos de extrema direita na França aderiram aos seus princípios autoritários. Quando o exército alemão invadiu aquele país, no início da Segunda Guerra Mundial, foram os membros de entidades, como a Juventude Patriótica, que colaboraram com os nazistas. Através deles, foi instituído um regime de colaboração com os invasores, na cidade de Vichy. 

Mais do que isso, foram os que deram suporte à propaganda desse regime. Foram eles, os que mataram a democracia francesa, seis anos depois dos lamentáveis acontecimentos de 1934. Foram os seus líderes, os responsáveis pela entrega dos judeus, enviados aos milhares para a morte nos campos de concentração.

As elites tradicionais têm a responsabilidade de liderar pelo exemplo e promover a estabilidade e o respeito mútuo na sociedade. Ao incitar grupos raivosos da chamada extrema-direita, elas correm o risco de desencadear ações violentas que fogem ao seu controle. A história da Europa nos lembra dos perigos desse tipo de colaboração, especialmente durante a ascensão do nazismo e do fascismo, quando grupos extremistas de direita encontraram terreno fértil para propagar suas agendas. É crucial aprender com esses eventos passados e trabalhar ativamente para evitar que tais situações se repitam no futuro.

Essa colaboração foi construída durante décadas, e, sem ela, não teria havido a devastação que a guerra produziu. Os apoios nacionais de grupos de ultradireita foram fundamentais na construção de uma ordem que gerou a simpatia que fez Hitler e Mussolini avançarem. No fundo, esses grupos queriam que o nazismo triunfasse e seriam os apoiadores nacionais desses regimes.

Por evidências históricas, como essa, é que devemos temer o crescimento de um patriotismo exacerbado, estribado em teses de intolerância e de exclusão dos adversários. Já que existe uma polarização inevitável no Brasil, que ela se dê no terreno da racionalidade política, a qual não admite que extremismos sobrevivam.

 

* Blog do professor e pesquisador João Gualberto Vasconcellos. Professor Emérito da Universidade Federal do Espírito Santo e Pós-Doutor em Gestão e Cultura (UFBA). Também foi Secretário de Cultura do Espírito Santo de 2014 a 2018. João Gualberto nasceu em Cachoeiro do Itapemirim e mora em Vitória, no Espírito Santo. Como pesquisador e professor, o trabalho diário de João é a análise do "Caso Brasileiro". Principalmente do ponto de vista da cultura, da antropologia e da política. O blog é um espaço de divulgação de artigos e ideias do autor.

 

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